sexta-feira, outubro 20, 2017

Um muro verde: o bom exemplo da África

Enquanto Trump insiste em construir um muro separando os EUA do México, a África dá um belo exemplo para o mundo: constrói um muro verde!(*)

A África está construindo um muro gigante – de árvores.
A barreira cruza o continente de leste a oeste - e o território de 11 países - e faz parte de uma tentativa de mitigar os efeitos de mudanças climáticas.
O plantio de árvores teve início em 2007 e o objetivo é fazer com que o muro atinja 8 mil km de comprimento e 15 km de largura.
Até agora, Senegal é o país que fez o maior progresso, com 11 milhões de árvores.
De acordo com Absaman Moudouba, líder de um vilarejo do sul do país que fica nas cercanias da chamada Grande Muralha Verde, o projeto está revertendo a desertificação.
“Quando não havia árvores, o vento escavava e desgastava o solo. Mas está mais protegido agora. As folhas viram compostagem e a sombra aumenta a umidade do ambiente - e assim há menos necessidade de água”, afirma.
“Antes, havia fome e seca generalizadas aqui. Então, começou a plantação de árvores e depois um jardim onde as mulheres fazem a cultura agrícola. Antes, as pessoas costumavam migrar, mas agora elas só seguem a linha da Grande Muralha Verde em busca de emprego. Elas não partem mais”, diz Moudouba.
O projeto começou em 2007 e o custo estimado é de U$8 bilhões (R$25 bilhões). Apesar de estar anos distante de ser finalizado, o Banco Mundial, a ONU, a União Africana e os Jardins Botânicos do Reino Unido seguem na busca de fundos para continuar o plantio.
(*) Com os devidos agradecimentos ao meu amigo francês, Claudius Girard, que ajuda a me manter informado.
PS- Diante tanta coisa ruim, que bela iniciativa a do muro verde. E como tem coisa para se fazer: com criatividade, inteligência e compromisso com o planeta. Será que com a grana que encontraram com o Geddel, por exemplo, não dava para reflorestar todas as áreas degradadas da Bahia?  

quinta-feira, outubro 19, 2017

A eleição de Trump e a "pós verdade"

Quando Trump se elegeu comentei aqui no blog que era um problemas dos americanos e de suas estranhas regras eleitorais. Hoje reconheço, suas atitudes como presidente da mais poderosa nação não deixam mais dúvidas: a eleição de Trump é uma preocupação de todos. 

O jornalista e pesquisador visitante da Queen Mary University, em Londres, Mathew D'Ancona, autor do livro "Post - Truth", procura nos mostrar o poder do Facebook e do YouTube nos dois resultados eleitorais mais instigantes dessa década: o referendo que aprovou a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Trump. 

No seu entendimento, a politica se enfraquece com o surgimento do que ele chama "a força dominante do mundo": a tecnologia. Seu livro aborda a era dessa novidade - a pós verdade. E foi justamente em 2016, com a eleição de Trump e com o "brexit" que a pós verdade ganhou escala global. 

"Não acho que os eleitores americanos se surpreenderam com o fato de Trump ter uma relação tênue com a verdade. Tanto no brexit quanto na eleição de Trump, tivemos a ressonância emocional como fator decisivo, em vez de fatos", comenta Mathew. E adianta, "o que houve é que a verdade relativizada e enfraquecida está acontecendo nas democracias. E não é o governo que está fazendo é a tecnologia". 

O pós resultado eleitoral tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos, se tornaram dois grandes problemas. O lado emocional passou e as incertezas afloram. Trump rompe com o Acordo de Paris, com o tratado do Irã, com o Obamacare, com a energia limpa e com o desenvolvimento de carros elétricos em grande escala. Continua insistindo com o  muro que separa os EUA do México e em dificultar a vida dos imigrantes. Para um primeiro ano de governo, uma pauta suicida.

Como um país que sofre todos os anos as consequências diretas do clima,  com furacões e devastadores incêndios, se afasta do Acordo de Paris? Como um país cuja  história de sua formação e consolidação como nação sempre esteve ligada a forte presença dos imigrantes, se compromete com a construção de um muro fechando sua fronteira com o México e toma medidas cada vez mais restritivas a presença de imigrantes?

As perguntas são pertinentes, só que agora Trmp é o presidente. O lado emocional da campanha passou e a realidade é outra. Trump vem sofrendo desgastes e as apurações em curso podem leva-lo ao impeachment.  Os motivos são bem mais graves que "as pedaladas" de Dilma: rackers russos teriam invadido as redes sociais com mensagens desabonadoras a rival de Trump, a democrata Hillary Clinton.  Como diria Mathew: é a tecnologia e suas armadilhas entrando nas nossas vidas.

quarta-feira, outubro 18, 2017

Mudanças climáticas e a visão chinesa

 Três grandes incêndios, pela devastação que causaram: chamaram a atenção do mundo. O primeiro em Portugal, depois na Califórnia e nessa semana um outro, na fronteira da Espanha com Portugal. A causa: tempo seco, altas temperaturas e ventos fortes. Não são os primeiros e nem serão os últimos. No Brasil das crescentes e preocupantes queimadas, como ainda não morreu ninguém, o estrago fica  por conta das árvores e bichos que se foram.

Por trás dessa tragédia anunciada, um desafio global: as mudanças climáticas. Ou se entende como um problema desse século, ou assistiremos a poluição nas cidades e os grandes incêndios nas florestas ameaçarem a continuidade da vida no planeta.

A China, responsável pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa no mundo, tem dado sinais de preocupação com o tema. Tanto nos fóruns internacionais, como na visão interna do governo chinês. Ao se colocar como líder na produção de energia eólica e solar, a China também passa a assumir a mesma meta em relação aos carros elétricos.

O novo mercado à impulsionar montadoras do mundo todo com projetos nesse tipo de veículo, pasmem: é a China. Só neste ano foram vendidos 300 mil carros elétricos, três vezes mais do que nos EUA. Nada aconteceu por acaso, um programa que envolve recursos e politicas públicas cujo objetivo é dominar a tecnologia que envolve os carros elétricos.

A China que já é o maior mercado dos carros convencionais se prepara para também liderar o mercado dos carros elétricos. Por trás, uma politica de Estado que define e cumpre metas. Pequim já determinou que 20% dos carros em circulação na China em 2025 deverão ser elétricos.  Como? exigindo que as montadoras internacionais ofereçam esses veículos no mercado local, se quiserem continuar a vender carros convencionais. Simples assim.

terça-feira, outubro 17, 2017

UNESCO: apesar do Trump a vida segue

A saída intempestiva dos EUA da UNESCO, braço da ONU voltado à educação, cultura e ciência, confirma o descompromisso de Trump com as causas globais. A UNESCO fundada em 1946, tem sede em Paris. Na América do Sul, a representação da UNESCO fica em Montevidéu. O Instituto IDEAL sempre teve um bom acolhimento de suas iniciativas junto a UNESCO, que distribuía as cartilhas educativas do instituto  em espanhol aos países membros.

A relação dos EUA com a UNESCO, nunca foi uma lua de mel. Em 1984, um outro republicano, Ronald Reagan, já tinha retirado os EUA da organização por considerar que ela atuava pró-União Soviética. Uma motivação muita parecida com a de Trump, que alegou um viés anti-Israel, ao anunciar a saída da UNESCO.

As instituições internacionais sem fins lucrativos que tratam da cultura, da educação e da ciência, são poucas e mais do que necessárias.  Infelizmente, salvo as exceções de sempre, políticos em geral não tem simpatia ao trio: cultura; educação; ciência. E as razões não são nada nobres. No Brasil sem rumo, um estudo recente da London School of Economics (LSE) comprova o que sempre soube do nosso Congresso: "o uso de argumentos científicos na formulação de políticas públicas no Brasil é superficial".(*) 

O vazio será preenchido, como já aconteceu com a saída dos EUA do Acordo de Paris. Um dia depois do anúncio, a China se comprometeu com a UNESCO de cobrir os custos da contribuições americanas, 22% do total.  Portanto, a vida segue para a UNESCO: sua responsabilidade com  os inúmeros "Patrimônio da Humanidade", a defesa que faz da liberdade de imprensa, da educação sexual e da igualdade de gênero no mundo,  mesmo que alguns continuem rotulando suas iniciativas como coisas da esquerda. Como nos ensina o cineasta e escritor chileno, Alejandro Jodorowsky: "Pássaros criados em gaiola, acreditam que voar é uma doença".

(*) A autora da pesquisa, professora de ciência política na LSE Flavia Donadelli, brasileira que leciona em Londres desde 2011, assim resume o estudo: "Pela análise dos debates no Congresso, avaliação de 343 documentos e as 58 entrevistas que fiz, não achei praticamente nenhuma referência a argumentos científicos no processo de formulação de políticas".

segunda-feira, outubro 16, 2017

Educação: o quanto regredimos

Logo depois de criada a Organização das Nações Unidas, não foi por acaso que criaram a UNESCO. O braço da ONU ligado a educação, cultura e ciência. A ideia na época, imagino eu, era de não descolar o crescimento econômico de uma base humanitária. Ao longo dos anos, o que se viu foi a força da economia mover o mundo. No entanto, países que acompanharam as preocupações da UNESCO são justamente os que lideram o ranking dos melhores lugares para se viver.

Ao longo desse período pós Segunda Guerra, o Brasil saiu de um país rural para uma das principais economias do planeta. Só que não tivemos a mesma performance em relação aos compromissos da UNESCO. Os indicadores que valorizam a cidadania e contribuem para a formação de uma sociedade melhor, no nosso caso: são vergonhosos.

Olhando apenas para a educação, já que mensurar cultura e produção científica exige um conhecimento que não tenho, nosso histórico é totalmente incompatível com o PIB que temos. As escolas públicas em geral regrediram. Num passado distante, foram bem melhores (*). As nossas universidades, se não regrediram, também pararam no tempo. Embora o Brasil seja o principal país da América Latina, não há uma única universidade brasileira entre as 100 melhores do mundo.

Um estudo recente e detalhado sobre elas, publicado pela Folha de São Paulo (18/9), pela primeira vez coloca a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) líder no ranking. Logo atrás vem a Unicamp. A USP, que sempre foi considerada a melhor universidade brasileira, aparece em terceiro lugar.

Para quem teve a oportunidade de se especializar em planejamento energético na COPPE, no início dos anos 80, uma boa notícia. No entanto, o próprio estuda que identifica a UFRJ como a melhor das nossas universidades alerta que "a partir desse mês a UFRJ não tem dinheiro para fechar as contas".

Não é jogo de palavras ou força de expressão. A melhor das nossas universidades, sofre com restrições orçamentárias. Segundo o reitor Roberto Leher, "A universidade é antiga (fundada em 1920), precisamos modernizar os prédios e as instalações".  Só que os recursos estão cada vez mais escassos. Em 2017, a UFRJ perdeu em termos reais 17% dos recursos. Obras importantes estão paradas, não tem dinheiro para pagar a luz e tem aula sendo  dada em contêiner. Enfim, essa é a realidade da melhor das nossas universidades.(**)

(*) Ontem foi o Dia do Professor. Embora considerada como uma das mais nobres profissões, todos sabem pelas dificuldades que os professores passam. Por isso quando o Ministro da  Educação fez sua saudação aos homenageados em rede nacional, muitos ficaram sem saber a que país ele se referia. 

(**) Segundo Vinicius Torres, em 2018 a miséria da educação será ainda maior. O orçamento federal para a ciência pode ter um corte de 40%. E a despesa prevista para a educação como um todo não terá destino melhor.

PS- Eu e meus quatro irmãos sempre estudamos em escolas públicas: primário, ginásio, científico e universidade. No interior do Rio Grande do Sul, entre as décadas de 40 e 60. O ensino era de qualidade: todos nós nos formamos. 

quinta-feira, outubro 12, 2017

De olho no fututo: dia 12, Dia das Crianças

No Brasil sem rumo, com os Poderes da República batendo cabeça e nos decepcionando dia após dia, nada como um feriado chuvoso para carregar as baterias. Foi o que fiz. Até para escolher o tema do comentário me deixei levar pela data: 12 de outubro é o Dia da Criança. Afinal, nada depende tanto das crianças como o futuro do Brasil. O que está disponível, só nos envergonha: deu!

Maria Luiza Nunes, tem 11anos. Mora em São Paulo e estuda numa escola pública da zona norte. Entrevistada pela Folha deu seu recado: "Meu sonho é ver a rua limpa e o país também". Caio Gomes, tem a mesma idade. Aluno de uma escola municipal, mora na zona leste: "Se alargar mais as ruas, construir mais viadutos, isso vai gerar mais carros ainda". João Vana, também tem 11 anos. Estuda numa escola particular da zona sul: "O meio ambiente é uma torre de cartas, tira uma e cai tudo." E nos conforta ainda mais ao declarar que carros elétricos são uma opção para diminuir a poluição urbana.

Por mais que a rede básica de ensino seja deficitária, nos alimenta de esperança o depoimento dessas crianças. A leitura que fazem da realidade que vivem é precisa. Sem se deter aos fatos, identificam nas suas preocupações: as cidades mal cuidadas, a sujeira na política, a falta de um planejamento urbano mais inteligente e de uma atenção maior com o meio ambiente.

Se traçarmos um paralelo das manifestações dessas crianças com a curta semana em Brasília, onde os Poderes da República voltam a mostrar quais os interesses que defendem, só nos resta torcer pelo futuro das nossas crianças. Caberá a elas encontrar o bom caminho. (*)

(*) No Poder Legislativo, um deputado com 40 anos de mandato não encontrou nada que justificasse a apuração da denúncia contra Temer. No Poder Judiciário, a votação no Supremo Tribunal Federal para decidir se cabe ao Congresso dar o aval para afastar parlamentares: foi um espanto, todos perderam. Só quem ganhou uma sobrevida foi o Aécio. No Executivo, onde as contas não fecham, depois do que fizeram com o Refis querem agora compensar o estrago aumentando a alíquota PIS/Cofins.

PS- Perguntar não ofende: o resultado do STF seria o mesmo se o nome de Aécio fosse Silva e não Neves?