sexta-feira, setembro 22, 2017

Na ONU, ameaças de Trump e vexame deTemer

Enquanto um sorri toda vez que solta um foguete, o outro aproveita a Assembleia Geral da ONU para ameaçar de destruição uma nação inteira. Não há como minimizar o papel de cada um, nesse jogo de inconsequentes. Trump e Kim se merecem: um se utiliza de um arsenal bélico de alto alcance e o outro - se acha - pelo poder que detêm. Pelas atitudes que tomam, pela agressividade das declarações que dão, pela adoração as armas de grande poder de destruição que possuem,  uma guerra nuclear não está tão longe quanto gostaríamos.

Quem também passou pela Assembleia Geral da ONU foi Temer. Preocupado com o Supremo,  que ontem autorizou por 10 votos a hum o envio da denúncia contra si de obstrução da Justiça e participação em organização criminosa à Câmara, o presidente não sabe até onde vai seu inferno astral. Contra si, ainda faltam as delações de: Funaro, Cunha, Geddel  e Rocha Loures. Um time e tanto, capaz de tirar o sono de qualquer um.

Sem querer passar por constrangimentos, Temer optou por abordar um tema caro  à ONU: o desmatamento da Amazônia. Só se esqueceu que essa causa tem simpatizantes e militantes por todo o planeta. Mal tinha acabado de falar, as redes sociais já faziam o contraponto.  Laura Carvalho,  aproveitou a coluna que tem na Folha para detonar com Temer: "Temer afirmou - pasmem - que seu governo vem concentrando atenção e recursos à preservação da Amazônia". Laura lembra que os dados oficiais de 2016, não confirmam as preocupações de Temer com a Amazônia: a área desmatada cresceu 27%.(*)

(*) Laura Carvalho é professora da USP e doutora pela New School for Social Research (NYC). Escreve às quintas-feira na Folha. Nessa quinta seu artigo se chama "Vexame na ONU".


quinta-feira, setembro 21, 2017

O Brasil em chamas, tremor no México e as ameaças de Trump

Altas temperaturas e  clima seco, a combinação perfeita para o aumento das queimadas. O Brasil também está em chamas fora dos poderes constituídos. A natureza continua dando sinais de esgotamento e se mostra cada dia mais vulnerável. A secura, pela falta de chuva, e as altas temperaturas  em pleno inverno, só confirmam os efeitos preocupantes das mudanças climáticas.

Em Brasília, onde tudo acontece, "o fogo amigo" e as queimadas fazem parte do dia a dia da capital. Com racionamento de água desde de janeiro, todos aguardam a chegada da chuva. O sinal dos reservatórios das hidroelétricas do Sudeste e Centro-Oeste, com apenas 25% de água acumulada, já levou o Conselho de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) a se reunir extraordinariamente na última terça-feira (19). Se não fosse a economia estagnada, provavelmente, o racionamento de energia estaria sendo debatido.

Na mesma semana, o México enfrenta um segundo tremor em menos de duas semanas. Além de 7 graus de magnitude, a proximidade do epicentro da capital deve elevar o número de mortos. Por falar em destruição não natural, mas provocada pelos homens, o presidente dos EUA, Donald Trump, em discurso na tribuna da Assembleia Geral da ONU ameaçou acabar com a "Coréia da Morte".  

Pela primeira vez um presidente dos EUA aproveita o principal evento da ONU, para intimidar e ameaçar a destruição total de uma nação. Que tristeza. Bravatas à parte, Trump e Kim se merecem. Quanto ao mundo, que a tudo assiste, só resta exigir que parem as ameaças. Cenas de destruição e morte, só as causadas pela natureza: que muitas vezes não conseguimos evitar.

terça-feira, setembro 19, 2017

Os dias eram assim: da mini série a vida real

Por coincidência a mini série da Globo "Os dias eram assim" se encerrou no dia em que tomou posse a nova Procuradora Geral da República, Raquel Dodge.

Por coincidência, um dia de vários recados. Tanto na mini série, como na vida real.

Em relação a mini série "Os dias eram assim":

- O delegado Amaral, na mini série é um torturador. No final, se elege deputado federal;
- Nas ruas os jovens se encontravam para lutar por liberdade, justiça e um país melhor;
- Os festivais de música eram espaço para novos talentos e local de grandes protestos;
- Nas grandes empreiteiras, como agora, a corrupção corria solta;
- Vitor, empresário da mini série, o "mauricinho de hoje", só pensava em ir para Miami;
- Aos inimigos do poder: a tortura. Não só a psicológica. Abrir a boca, nem pensar: era "dedo duro";
- Aos amigos do Poder: todas as benesses possíveis;
- A imprensa noticiava o que convinha ao Poder. A censura estava presente em todos os setores;
- A Justiça não era cega. Só enxergava um lado: o que interessava ao regime;
- O Congresso só servia para legitimar atos do presidente de plantão, sem voto e impopular.

Quanto aos dias são assim, a vida real (*):

- Dodge assume a Procuradoria sem citar a Lava Jato;
- Dodge sentou-se na mesa das autoridades ao lado de Temer;
- Na mesa das autoridades, Dodge e a ministra Carmem Lúcia eram as únicas que não são alvo de investigação. Os demais: Eunício Oliveira, presidente do Senado, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, e Michel Temer figuram em inquéritos da Lava Jato;
- A corrupção corre solta. Muita gente presa. O que não falta é delator querendo encurtar a pena;
- Saiu no "The Guardian": Delatores e investigados na Lava Jato compram imóveis em Portugal;
- O general Mourão discursou num encontro de maçons, admitindo a volta dos militares;
- Um juiz em Jundiaí (SP), um delegado em Campo Grande (MS) e um banco em Porto Alegre (RS), como nos tempos da mini série, simplesmente desconheceram que a liberdade de expressão é um direito da cidadania. Censuraram as atividades que consideraram impróprias......;
- Justiça concede liminar  a favor de "cura gay", um retrocesso e uma violação aos direitos humanos.

(*) As observações acima foram selecionadas dos jornais de hoje. Se olharmos com atenção, o   que nos movia no passado era a luta pela cidadania plena: democracia, fim do arbítrio, justiça e igualdade social.  Agora, dá pena. O que se vê é um desastre: na gestão, na política e na economia. O desrespeito com os recursos públicos, com a cidadania e o meio ambiente. Regredimos!

PS- No Rock in Rio: o que uniu as diferentes tribos foi "FORA TEMER". Como faziam na ditadura, minimizaram o ocorrido. Mas isso pouco importa. O que vale é o compromisso de se construir um Brasil melhor. Só não vê o fim desse governo, seus cúmplices. Felizmente são muito poucos. Na pesquisa publicada hoje, Temer aparece em último lugar: com cerca de 1% das intenções de voto. Ninguém merece, a pior avaliação que um presidente já teve.  


segunda-feira, setembro 18, 2017

O encontro de dona Marisa com Brizola e Jango

Nos poucos dias que passei em Buenos Aires, me desliguei do Brasil. Na volta, só confirmei a certeza que tinha: nossos dias nunca serão como antes. De uma hora para outra, tudo muda. Quem estava preso foi solto. Quem estava solto, agora está preso. Enquanto procuradores batem cabeça, advogados enriquecem e juízes não sabem mais o que fazer com os delatores: lá fora viramos piada. 

Diante tantas incertezas e por estar na Argentina, me veio a lembrança João Goulart. Segundo relato do seu filho João Vicente,  Jango sempre sonhou que um dia voltaria ao país que tanto amava. No final da tarde costumava sentar na barranca do rio Uruguai, do lado argentino, e lá ficava horas olhando para São Borja, sua cidade natal.  Jango só voltou para o Brasil morto. Seu corpo foi liberado para ser enterrado em São Borja.

Pois foi esse Jango que D. Marisa procurou lá onde ela se encontra. Indignada com o "testemunho voluntário" de Palocci ao juiz Moro,  dona Marisa se encontrou com Brizola e Jango para conversar.  Se encontraram sobre a sombra de uma árvore, local preferido dos cunhados, onde os dois costumam  matear e jogar conversa fora.  Dona Marisa, que sempre teve um pé atrás com Brizola, não perdeu tempo. Foi logo abrindo o jogo: "vocês dois, que já passaram por tudo, tiveram a vida virada de cabeça para baixo, sofreram todo o  tipo de constrangimento e perseguição,  podem me dizer as razões do Palocci para atacar o Lula. O dinheiro do Lula, quem controlava era eu. Conta no exterior nunca teve, 300 milhões da Odebrecht nunca houve, terreno, sítio, apartamento por conta de um pacto de sangue com os Odebrecht, só da cabeça do Palocci. Por que essa traição agora?"(*)

Brizola, de pronto respondeu a dona Marisa: "Palocci entrou no jogo das delações. Prendem e depois negociam reduções das possíveis penas. Por isso falam o que querem ouvir. As provas, se é que existem,  ficam para depois. Tem sido assim dona Marisa, lá na República de Curitiba".

Jango que a tudo ouvia, também deu sua contribuição: "Veja dona Marisa o que fizeram com a Dilma. Sem nenhum crime de responsabilidade que justificasse o impeachment, se juntaram e deram um golpe. Seus algozes estão na cadeia, ou a caminho dela. O lado podre do Congresso, decisivo nesse processo, já está de olho em 2018. Parte da sociedade que batia panela nas suas varandas  gourmets, não sabe o que fazer com as panelas." Depois de um prolongado silêncio, Jango conclui: "Regredimos, dona Marisa....regredimos". E segue associando o passado ao presente:

"Eu pelo menos me afastei para evitar uma guerra sangrenta entre irmãos. Não eram panelas que batiam, eram armas que atiravam. Embora tenha sofrido muito, não me arrependo da decisão que tomei. Pior foi o  que fizeram com Dilma: não aceitaram o resultado da eleição e tudo  fizeram para afastá-la. Quem ainda está em dúvida, que pergunte ao Aécio, ao Cunha, Temer, Moreira Franco, Rodrigo Maia, Geddel e tantos outros. Os interesses que eles representam, não são os nossos dona Marisa. Eles governam para os de sempre. Por isso não nos querem. Como falta voto: se juntam , manipulam e traem."

Quem de certa forma pensa assim, é o escocês Angus Deaton, Nobel de Economia em 2015. Sem saber desse encontro lá em cima de dona Marisa, Jango e Brizola, ele está aprofundando seus estudos e escrevendo sobre pobreza, consumo e bem-estar. Professor da Universidade de Princeton, uma das mais importantes dos EUA, se diz um estudioso "cautelosamente otimista". Embora não cite o Brasil, "está convencido que não há igualdade de oportunidades e que as decisões políticas estão sob o domínio da elite financeira, num processo que reforça o enriquecimento do 1% mais rico e ameaça a democracia".  Portanto, que não se perca no tempo os ensinamentos de Deaton. Principalmente, em relação a democracia. O impeachment de Dilma e suas consequências, não pode cair no esquecimento. O que ocorreu precisa ficar registrado e fazer parte da nossa história. 

(*) Lula, Brizola e Jango, em momentos distintos, tiveram suas vidas e suas casas reviradas. Quanto a Lula, até hoje não provaram nada. Não apareceu uma conta no exterior, como a do Cunha, uma mala de dinheiro, como a do Rocha Loures, um apartamento  virado em cofre, como o do Geddel. Sobre Brizola e Jango, nada de ilícito foi  encontrado. Seus bens, sempre tiveram origem: herança de família. Jango e Neusa Goulart Brizola eram irmãos. Seus pais, grandes  fazendeiros no Rio Grande do Sul. 

quinta-feira, setembro 14, 2017

América sem Carbono, um caminho sem volta

A ideia da América sem Carbono nasceu em 2015, durante meu pósgrado na Universidade de Belgrano, na Argentina. Sempre que apresento a ideia, no primeiro momento há uma desconfiança. Depois argumentando com números e estudos que vem sendo feitos, tudo fica mais fácil. No fundo estão todos tão acostumados com o petróleo que não percebem que ele é finito. E que  na América Latina, na próxima década, poucos países vão ter o que usar para se mover.(*)

A Argentina, por exemplo, no passado tinha uma situação confortável em relação ao petróleo. Praticamente produzia o que consumia.  A revista Energia e Negócios da semana passada, apresenta dados e gráficos que mostram investimentos e produção em queda. As empresas do setor que investiram 7,3 bilhões de dólares em 2016, nesse ano vão investir 11% menos. A produção de petróleo acumulada segue também em queda. A previsão é de menos 10%. Um outro indicador relacionado a produção é o de número de poços perfurados. Em 2016 foi o pior ano, o número de poços ficou 30% abaixo da média histórica de perfurações.

O resumo que ora faço vem a confirmar minhas convicções: América sem Carbono, um caminho sem volta. Quanto antes entendermos essa mudança de modelo de desenvolvimento - melhor!

(*) Me arrisco a dizer que a Venezuela, pelas reservas que tem, e o Brasil, pelos resultados obtidos no pré sal, podem ter um pouco mais de tempo para organizar a travessia. Mas quanto antes começarem melhor.

terça-feira, setembro 12, 2017

Buenos Aires: 25 anos atrás - alerta máximo

Dia 11 de setembro de 1992, faz os portenhos se lembrarem do maior atentado promovido por forças externas a um país da América Latina. Não me lembrava da data, mas por coincidência o hotel que estou em Buenos Aires fica a uma quadra da Embaixada de Israel - que explodiu 25 anos atrás. Com a presença do primeiro ministro Benjamin Netanyahu, que veio homenagear as vítimas, Buenos Aires acordou em estado de alerta máximo. As ruas na volta da antiga Embaixada, agora transformada em praça (fotos acima), estavam isoladas por um forte esquema de segurança. Não passava ninguém.

O caso continua em aberto e cercado de mistério. Em 2015, o procurador responsável pelo caso da AMIA (*), Alberto Nisman, é encontrado morto em seu apartamento, em Puerto Madero. Até agora não há responsáveis pelo atentado.

(*) Dois anos depois, em 1994, o alvo foi a Associação Mutual Israelense Argentina - AMIA. Total de mortos: 86 pessoas.